
Em 1975, Jack Nicholson já tinha quatro indicações ao Oscar, por Easy Riders, Cada um Vive Como Quer, Chinatown e A Ultima Missão. Sua presença na cerimônia de 1976 não foi nenhuma surpresa, e sua vitória, mais normal ainda.
Até hoje, pouquíssimas atuações superam a de Nicholson em Um Estranho No Ninho. Ele é tão natural, tão verdadeiro que o personagem parecia estar tomando conta. Na verdade, o elenco inteiro é um deleite. Foi o filme que lançou a carreira de vários atores como Danny DeVitto, Christopher Lloyd e Brad Dourif (Até então um garoto promissor). Seus papéis são pequenos, porem cada um deles é fundamental para o filme. A história se centra em um hospício, onde se passa quase todo o filme. Randle Patrick McMurphy (Nicholson) é um prisioneiro que simula insanidade para escapar do trabalho, e é mandado para um hospício. Ele acredita estar sendo inteligente, fugindo da prisão para um lugar muito mais calmo. A esperteza de Patrick é desmentida pela enfermeira Ratched (Louise Fletcher, também vencedora do Oscar) que controla a instituição com uma tirania ditadora.
Patrick é um homem diferente de todos que os interno conheciam. Ele não aceita as ordens impostas para tentar dominá-lo. Quando a enfermeira o pede para tomar uma pílula que ele acreditava desnecessária, Patrick recusa-se a tomar. Então Ratched, com uma calma cruel, afirma: “Bem, se o Senhor McMurphy não quer tomar seus remédios por via oral, tenho certeza que podemos arranjar outro jeito”. Logo fica claro para todos o que ela quer, inclusive para Patrick, que pega a pílula e segura na boca até ter distancia suficiente para cuspi-la fora. Todos ao seu redor parecem surpresos por sua atitude e Randle os ridiculariza.
A enfermeira Ratched é, na minha opinião e da dos críticos do American Film Institute, a mais perversa de todos os vilões de cinema. Atualmente, os vilões são assassinos em série que matam adolescentes seminuas, e mesmo depois do fim do filme você ainda não percebeu crueldade neles. A enfermeira-chefe é desumana, ela é como o diabo vestindo roupas de hospital. Ela oprime Patrick, tenta transformá-lo em um prisioneiro. E é sobre isso que o filme trata principalmente; a busca pela liberdade, tanto como física como de expressão.
De certa forma, todos aquele estão em busca de liberdade. Em certa altura do filme, Patrick consegue escapar com um ônibus cheio de internos, e, ao invés de procurar fugir do país ou coisa assim, ele pega sua namorada (Mews Small) e parte para uma pescaria. A cena é tão brilhante que merece uma atenção especial. Todos os internos estão lá, ao alto mar, sem ninguém para cuidar deles, Patrick os ensina a pescar e exclama para um deles: “Você não é um idiota! Você não é um maldito lunático agora, garoto! Você é um pescador!”. E você pode perceber, que nesse momento, eles estão mais felizes do que jamais estiveram.
Patrick é um personagem incrível. Assim que ele chega no lugar, ele encontra um índio enorme que, logo o informam, é surdo e mudo. Mais tarde, ele está na quadra de basquete e começa a conversar com o índio, que todos chamam de Chefe, e ensiná-lo a jogar basquete. Ao ver as tentativas de Patrick de ensinar o surdo a jogar basquete um guarda se aproxima e diz “Do que adianta? Ele é surdo”. E ele responde: “Então não vai fazer mal nenhum”. Por fim, o Chefe aprende a jogar e quando os presos começam a jogar contra os guardas, é clara a alegria deles e o desprezo dos guardas.
Apesar de tudo, mas especial do que o filme propriamente dito, foi a história de sua produção. Kirk Douglas queria adaptar o livro de Ken Kesey para o cinema, depois de representá-lo nos teatros por poucos meses. Porém encontrou diversos problemas no caminho, como a falta de um produtor interessado. Muitos anos depois, quando o filme estava preste a cair no esquecimento, Michael Douglas, filho de Kirk pegou o roteiro e decidiu o levar adiante. Como Kirk estava muito velho para o papel, Michael teve que ir atrás de um elenco diferente do programado e começou convidado James Caan para fazer o papel principal. Hoje eu penso que erro teria sido, se Caan tivesse pegado o papel. Ele é, indubitavelmente, um ótimo ator; mas seu estilo durão não se encaixaria no papel como o espírito jovial e brincalhão de Nicholson. Por fim, com Fletcher escalada para fazer a vilã, o filme começou a filmagem, que demorou, sofreu alguns problemas com o tempo, mas conseguiu lançar na data programada.
Milos Forman estreeou no cinema com vinte e oito anos, em 1960, com o filme tchecoslovaco Lanterna Magika II, porém, Um Estranho No Ninho foi seu primeiro filme de sucesso. Sucesso tão merecido que foi laureado com o Oscar de melhor diretor. Esse filme parece ser o filme que melhor caracteriza o espírito que ele impõe em suas produções. Em todas suas produções seguintes, de Hair até O Mundo de Andy, seus personagens principais sempre se encontrar, de certa maneira, distantes e excluídos da sociedade. Em Amadeus, F. Murray Abraham se sente culpado pela morte de Mozart e tenta se suicidar. Em O Povo Contra Larry Flint, Woody Harrelson é extremamente criticado e provocado por ter lançado a primeira revista pornográfica do mundo. E, é claro, temo Randle McMurphy. Ele é totalmente contrariado e humilhado na instituição, mas não deixa que os enfermeiros o tornem um prisioneiro. Ele é livre, e quer mostrar a liberdade para os outros.
De toda a carreira de Nicholson, ele nunca conseguiu uma atuação mais realista do que a do seu primeiro Oscar. Sua representação em Melhor é Impossível, assim como em As Confissões de Schmidt, é esplêndida. Mas muito provavelmente ele não conseguira atingir o ponto que ele toca em Um Estranho No Ninho de novo.
Eu não acredito que esse filme irá durar muito tempo. A batalha de Patrick, que se demonstra tão ganha no final do filme, por liberdade é inspiradora, mas na vida real, parece ter perdido lugar para os ideais da enfermeira Ratched. Infelizmente as próximas gerações não vão ter lugar para Um Estranho No Ninho assim como não terão para Easy Riders ou qualquer filme que demonstre um ideal perdido. Os personagens de Henry Fonda e Dennis Hopper em Easy Riders não tem um destino marcado e seguem o estilo de vida que eles achavam certo, se drogando e fazendo sexo com mulheres diferentes. A idéia de sexo e drogas livres, hoje já foi abolida e Easy Rider já não tem mais sentido para que não vivenciou aquela época. Mas se existe uma esperança para Um Estranho No Ninho, está naquelas pessoas que, mesmo depois de tanto tempo, ainda confiam nas idéias que o filme prega. Mas uma vez que Um Estranho No Ninho começa a fazer efeito na pessoa que o viu, o filme já conseguiu seu lugar para ser lembrado pela sua beleza, inteligência e curiosa satisfação por conseguir existir com tamanha perfeição. E a uma vez vivenciada esta experiência, você entenderá o verdadeiro significado de liberdade. Esse é o efeito que Um Estranho No Ninho deve ter sobre as pessoas. Conquistar o seu lugar e nunca mais sair dali.
Nota Final: 10,0

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