domingo, 12 de agosto de 2007

Os Infiltrados

Ok. É sério agora. Martin Scorsese é um gênio. Quer dizer, só mesmo ele para pegar um gênero praticamente enterrado e revivê-lo com uma cara totalmente renovada. E um gênero que ele mesmo ajudou a criar.
La pela década de 70, os filmes de máfia (Assim como a maioria dos filmes em geral) estavam morrendo. Então, em 1972, Francis Ford Coppola lança o que a maioria considera o melhor dos filmes do tipo até hoje: O Poderoso Chefão. Este virou ponto de referencia para filmes de máfia, o Vito Corleone de Marlon Brando se tornou a imagem de mafioso clássica e o gênero mais uma vez voltou a ativa. Claro, a seqüência (As vezes considerada até melhor do que o original) saiu pouco tempo depois mas só aquela série não servia para manter o gênero aceso. Scorsese já trabalhara com crime organizado em Caminhos Violentos, mas de um ângulo diferente. Enfim que o homem faz Os Bons Companheiros (Esse sim que eu acho que seja o melhor filme do assunto). Pareceu que ele dizia “Esqueça o que você acha que saiba sobra máfia, aqui esta a verdade”. Baseado em um livro escrito por um mafioso em pessoa sobre o tempo que viveu entre os poderosos, o filme não só é brilhantemente atuado e dirigido como revelou a outra faceta dos gângsteres atuais. Violentos e problemáticos, eles aproveitam todo o glamour do poder e do dinheiro, mas sempre cercados de violência crua. Em Cassino ele ainda repetiu a façanha.
Agora, já se passaram onze anos desde Cassino e Martin produz mais um filme de máfia. E a primeira coisa que deve ter vindo à cabeça dos espectadores foi “Desgraçado. Ele conseguiu de novo”. E conseguiu mesmo.
Os Infiltrados só tem o estilo de Martin de igual com seus filmes anteriores, pq essa nova brilhante obra é um fucking filme brilhante. O roteiro (Justamente premiado com o Oscar) é de uma inteligência que não se vê em um filme policial desde Se7en. Tudo começa com um genial monologo do mafioso irlandês Frank Costello (Jack Nicholson) sobre, entre outras coisas, poder. Em pouco tempo temos uma idéia geral da personalidade de Costello. Scorsese usou uma estratégia curiosa: Durante essa seqüência inicial inteira ele manteve o rosto de Costello durante as sombras, não só para esconder a idade de Nicholson (Na época com quase 70 anos), mas para manter uma aura ao redor de mistério ao redor do mafioso. Ele aborda um garoto e pergunta se ele é filho de alguém; o garoto confirma. Costello da alguns presentes a ele e diz aonde ir se quiser o encontrar para ganhar algum dinheiro. Colin Sullivan (Matt Damon) logo cresce e é possível o ver treinando para entrar na policia estadual de Boston. Ao mesmo tempo, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) também tenta virar policial. Porem, quando ele vai se encontrar com os capitães Queenan (Martin Sheen) e Dignan (Mark Whalberg, indicado ao Oscar), ao contrario de Sullivan que teve uma boa aceitação, é criticado pelo passado familiar no crime. Seu tio havia feito parte do crime organizado, trabalhando até com Costello. Sendo assim, eles vêem em Billy o sujeito ideal para seus planos: Se infiltrar na gangue de Costello. Para isso, Costigan tem apenas de cometer um crime e passar um tempo na prisão, para justificar o fato de ele não ser mais um policial.
A trilha sonora do filme é um caso a parte. De Rolling Stones a Pink Floyd, o usual colaborador de Scorsese, Howard Shore fez uma escola excelente para a trilha. Destaque para “I’m Shipping Up To Boston”, uma espécia de rock irlandês com direito até a gaita de fone. Ela começa a tocar exatamente na hora que o filme começa de fato, quando Costigan entra na prisão para começar o projeto.
Um dos grandes feitos de Os Infiltrados é conseguir superar o filme em que foi baseado. Conflitos Internos, visto separadamente, é um bom filme. Mas comparado com sua refilmagem é que alguns defeitos vêm à tona. Tomando por exemplo Billy Costigan. Em Conflitos a família dele não tem nenhum passado criminoso, não mostra o começo de sua infiltração e nem como ele subia no conceito do Costello coreano. Basicamente, o que aparece em 10 minutos de um, demora uma hora em outro. Isso não deveria ser um defeito? Enrolar muito? Não, quando o tempo é utilizado para cuidar mais dos personagens. Colin Sullivan é tratado quase como um filho por Costello (O que levam muitos a pensar que ele realmente seja o filho do mafioso) e, quando ganha seu cargo na policia é solicitado para solucionar dos problemas: Achar o infiltrado de Costello na poliicia e o infiltrado da policia na gangue de Frank. Ele tem que achar a si mesmo e um cara que não tem idéia de quem possa ser.
O roteiro de Willian Monaghan surpreende, antes de tudo, pela inteligência. Scorsese é muito talentoso para deixar tiros e explosões serem os astros do seu filme. Mas também sabe que não pode excluí-los. Então, prefere dar uma pressão maior na tensão do longa, que beira o insuportável em algumas horas. Costigan passa a ficar paranóico depois de passar um ano com Costello. Qualquer movimento que ele faça errado pode matá-lo, piorando quando Frank descobre que existe um infiltrado em sua equipe. Então Billy começa a tomar calmantes e freqüentar uma psicóloga (A ótima Vera Farmiga), esta que é a atual namorada de Sullivan. O contraponto para a agonia psicológica de Billy é exatamente a calma de Colin, que parece ter tudo sobre controle, e por vezes ainda arrisca mais, irritando Costello – o que gera brilhantes nuances da verdadeira personalidade vulnerável e insegura dele, quando criticado pelo “pai”.
Deve ficar claro que o diferencial de Os Infiltrados é que é um filme de personagens. A história por si só, sem um aprofundamento qualquer não seria digna de duas horas e meia da vida de ninguém. Todos, inclusive os coadjuvantes, são essenciais para a trama. Desde o capitão Queenam até Costello, cada um desempenha seu papel com excelência. De tantas atuações afiadas, fica difícil destacar uma em especial. Mas se me pedirem para escolher, vou sempre ficar em duvida entre DiCaprio e Nicholson. Enquanto DiCaprio fornece uma das melhores atuações de todo ano e a melhor de sua carreira, Nicholson parece confortável com seu jeito de psicótico. Talvez ele esteja apenas fazendo a si mesmo, como dizem. Mas qual o problema, quando isso já é o bastante? Graças a ele, Frank foge dos estereótipos de mafioso que rodam os filmes do tema. Utilizando-se do charme inegável de Nicholson, Costello exprime perigo por cada um dos seus cantos. Pervertido e cruel, o mafioso começa a perder o controle conforme chega o final do filme. Certa hora, ele aparece com sangue até os cotovelos, troca umas palavras com Billy e berra “Tragam-me um balde e um esfregão”. Essa naturalidade com a morte é um tópico muito bem tratado no filme. Quando, bem no começo do filme, Costello mata um casal, ele só se da ao trabalho de soltar uma risadinha e falar “Ela caiu engraçado”. Envolvido por essa onda de assassinatos, Costigan tem dificuldade de se adaptar e acaba se tornando violento.
Este é um daqueles filmes que, não importa a duração, você simplesmente não consegue desviar os olhos da tela. São duas horas e meia que passam voando. Scorsese dirige o espetáculo com a perícia que apenas um mestre conseguiria, arquitetando seqüências memoráveis, como a em que Sullivan liga para Costigan e os ficam na linha sem falar nada, tentando antecipar o movimento um do outro. Uma olhada superficial não daria nenhuma importância para essa cena em especial, mas com um olhar mais aprofundado, se percebe toda uma essência do filme ali mesmo. Os dois, um de cada lado, em silencio absoluto imaginando o que o próximo irá fazer e tentando se antecipar. As expressões tanto de DiCaprio quanto de Damon já valem o filme.
Outro fato que ajuda a fazer o filme passar rápido é exatamente que tudo na tela passa depressa. Como os dois infiltrados estão por si só, tem que pensar mais rápido do que qualquer um ao seu redor para se dar bem, e isso pode prender qualquer um na cadeira pelo tempo que seja. Todo um plano foi armado para prender Costello e sua gangue, que, por intervenção de Sullivan, já estão ciente e prontos para escaparem. De repente o policial extremamente viril interpretado por Alec Baldwin (Ótimo) avisa que houve uma mudança na estratégia. Sullivan começa a fazer a mente ferver para achar uma solução rápida e avisar Costello, sem parecer suspeito, enquanto Costigan precisa arrumar um jeito de burlar o improviso de Colin. É um genial jogo de gato e rato em que qualquer movimento errado pode matar alguém.
Os Infiltrados não é nem de longe um filme que subestima sua inteligência. Ao contrario da maioria dos policias de Hollywood que já vem mastigados para o publico não precisar se esforçar muito, Scorsese confia que você vai pensar um tanto e entender o que esta acontecendo, discutindo até depois que a sessão já acabou. Nesse filme você não vai achar uma daquelas cenas onde o personagem revela suas ações para o mundo inteiro antes de efetuá-las. Cabe ao espectador acompanhar o raciocínio dele, por exemplo, quando Sullivan, de repentino, manda que o capitão Queenan – seu próprio chefe – seja espionado. E mesmo quando não se trata de raciocínio, algumas das tiradas mais brilhantes do filme lhe recordam a cenas que de inicio não pareceram importantes, mas que podem mudar totalmente o rumo do filme.
Basicamente, Os Infiltrados é uma aula de cinema em todos os aspectos. Dos ângulos de câmera até o roteiro inspirado de Monaghan, Scorsese arquitetou uma mini-obra prima do gênero policial. Em uma trama de gato e rato em que o felino e o roedor têm suas personalidades despedaças e estudadas, pedaço por pedaço, uma simples perseguição não basta sem as mãos de alguém que sabe o que esta fazendo para comandar. E como ainda falamos de um dos maiores diretores de todos os tempos (E o melhor em atividade), ele claramente sabe o que esta fazendo. Os diretores atuais podiam pegar Martin como base para uma careira sólida, e pegar Os Infiltrados como base para um bom filme policial. Até agora, Scorsese é o professor. Os outros são os alunos.

Nota Final: 9.5

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