quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Cidadão Kane


Pode uma palavra sozinha, definir a vida de um homem? Se muitos dizem que não, a de Charles Foster Kane pôde. Toda a vida do genial magnata da imprensa foi reduzida a uma palavra, a primeira do filme, e a ultima de Kane: Rosebud. Depois da morte de Charles, o significado da palavra permanece oculto para o mundo. É Rosebud que guia o filme: Um repórter e designado para conhecer toda a vida do magnata para descobrir o significado de sua derradeira palavra.

Considerado pelo American Film Institute como o maior filme de todos os tempos, Cidadão Kane foi obviamente subestimado na época do seu lançamento, e Orson Welles, roteirista, produtor, diretor e ator principal do filme ganhou apenas o premio de melhor roteiro original. Mas premiações nunca atrapalharam nenhum filme, e não conseguem atrapalhar esse. Kane foi brilhantemente dirigido, e fez coisas que na época pareciam impossíveis. Os ousados ângulos de câmera de Welles foram os pioneiros de certos estilos, como, por exemplo, mostrar o teto em cenas internas. Ele queria que Kane fosse filmado por câmeras rebaixadas, de maneira que, se os equipamentos de filmagem ficassem no lugar do teto, a cena seria impossível. Ele foi simples, cobriu o lugar com o um pano e colocou o material por cima, deixando o teto ligeiramente mais baixo do que deveria. A decisão de fotografar Kane por baixo teve sentido: Ele queria realçar o poder dele, mostrando-o como alguém grandioso e influente.

A câmera é um personagem do filme. Seu trabalho é fundamental, e suas jogadas podem parecer imperceptíveis, porem perfeitas. Na hora em que a fotografia mergulha por uma clarabóia direto para o rosto desolado de uma das amantes de Kane, Welles passou de uma maquete para o estúdio sem perder o foco da câmera, o que fez o mundo acreditar que aquele mergulho era real.

Charles Foster Kane era, antes de tudo, um homem brilhante. Depois de ter sido afastado de casa, ele fica rico no ramo de jornais e se torna um dos homens mais ricos do mundo. Porem, ele acredita ter mais poder sobre sua vida e a dos outros do que realmente tem. Ele se casa apenas por achar que pode fazer a mulher ser um sucesso, porem falha miseravelmente. Em uma única cena ele mostra o adorável começo do casamento deles, em torno de uma mesa, até os indiferentes jantares no final da relação. Ele constrói um teatro apenas para que a nem um pouco talentosa Susan Alexander (Dorothy Comingore) possa se apresentar. No final do seu primeiro espetáculo, as pessoas que a assistiam aplaudem de maneira quase robótica, mas a câmera da uma guinada e nos leva até Kane, parado imponente no seu camarote, que se levanta e começa a aplaudir com mais força e vontade do que todo mundo, de maneira desafiadora.

A cena final é cruelmente interessante. Depois de passar o filme todo procurando o significado da ultima palavra de Charles, Jedediah Leland (Joseph Cotten, que só é mostrado de costas ou em um perfil mal iluminado) se encontra na casa de Kane em Xanadu, e desiste de achar a resposta para a palavra. Ele se retira, mas a câmera continua. Ela se movimenta sobre os móveis da casa, prontos para serem queimados, todos empilhados, e começa a descer para cima de um, que é pego e jogado no fogo. E no meio das chamas, prestes a se perder para sempre, é possível de ler claramente no trenó que pertencera a Kane na sua problemática infância, a palavra que ele escolhera para terminar sua vida: Rosebud.

Na verdade, Cidadão Kane nunca diz o que significado essa palavra. Ele mostra o que ela é, mas não diz seu significado. Pode ser o nome de alguém da família, de um lugar especial, ou até mesmo de algum amor antigo. Mas quando é possível ler Rosebud, na derradeira cena final, nós sabemos que o seu significado esta acima do filme, ela simplesmente estava lá o tempo todo, pairando acima de nós e rindo. Rindo da busca do mundo para descobrir o significado de uma palavra que não queria dizer nada.


Nota Final: 9.5

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